Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap

“Prosseguindo em nossa jornada meditativa pelo Cântico das Criaturas de São Francisco,
chegamos agora ao que podemos considerar o coração mesmo deste hino sublime:
Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água, que é muito útil e humilde e preciosa
e casta
”.

Este verso sobre a Irmã Água não ocupa apenas o centro estrutural do poema, mas
representa também seu núcleo temático e espiritual. Assim como a água é essencial para
toda vida física, este trecho central do Cântico reflete a essência da espiritualidade
franciscana – a humildade, a pureza e a utilidade a serviço de todos. Não é por acaso que
Francisco posiciona a água no coração de seu poema: ela simboliza o fluxo vital que
conecta todos os elementos anteriormente mencionados (Sol, Lua, Estrelas e Vento)
com aqueles que virão a seguir.

Nestas poucas palavras, escritas há oito séculos, São Francisco captura a essência deste
elemento fundamental para toda forma de vida. Ao chamar a água de “irmã”, o santo de
Assis mais uma vez rompe com a visão utilitarista da natureza e estabelece uma relação
de parentesco e respeito. A água não é um simples recurso a ser explorado, mas um
membro da família universal, merecedora de reverência e cuidado.

Os adjetivos escolhidos por Francisco para descrever a Irmã Água são particularmente
significativos e revelam uma compreensão profunda de suas qualidades essenciais.
Primeiramente, ele reconhece sua utilidade – “muito útil“. É impossível exagerar a
importância fundamental da água para a existência humana e para toda a biosfera. Sem
água, não há vida. Esta utilidade, no entanto, não é vista por Francisco como um convite
à exploração desenfreada, mas como motivo de gratidão ao Criador.
Francisco prossegue descrevendo a água como “humilde“. Esta caracterização revela
uma observação profunda da natureza da água, que sempre busca o lugar mais baixo,
que se adapta a qualquer recipiente, que cede passagem e depois retorna
silenciosamente ao seu curso. Esta humildade da água contrasta dramaticamente com a
arrogância humana que tem levado à contaminação de rios e oceanos, ao desperdício
irresponsável e à distribuição injusta deste bem essencial.

O santo também chama a água de “preciosa“. Oito séculos depois, esta palavra ganha
uma ressonância ainda mais forte em um mundo onde a escassez de água potável afeta
bilhões de pessoas e se agrava com as mudanças climáticas. A preciosidade da água,
antes considerada um bem abundante e gratuito, torna-se cada vez mais evidente à
medida que enfrentamos secas prolongadas, contaminação de aquíferos e conflitos pelo
acesso a este recurso vital.

Por fim, Francisco descreve a água como “casta“, evocando sua pureza original. Esta
qualidade nos confronta diretamente com a realidade atual da poluição hídrica. Quando
contaminamos rios, lagos e oceanos com plásticos, produtos químicos, esgotos não
tratados e outros poluentes, estamos violando a castidade natural da Irmã Água. A
descrição franciscana nos convida a recuperar o sentido do sagrado em relação às fontes
de água, restaurando sua pureza original.

É significativo que no centro de seu poema, Francisco tenha colocado este elemento
que, em sua transparência, reflete todas as outras criaturas, assim como reflete o próprio
rosto humano de quem nela se mira. Como coração pulsante do Cântico, a Irmã Água
nos ensina que o amor pela Criação deve ser transparente, fluido, adaptável e
purificador – qualidades essenciais para nossa relação com toda a natureza.

A água é também um símbolo central em nossa fé. Desde o batismo que nos insere na
comunidade cristã até as muitas referências bíblicas à “água viva”, este elemento está
intrinsecamente ligado à nossa experiência espiritual. A visão franciscana da Irmã Água
nos ajuda a redescobrir esta dimensão sacramental, reconhecendo em cada gota um
reflexo da bondade divina.

Ao celebrarmos os 800 anos do Cântico das Criaturas, somos convidados a ouvir
novamente o murmúrio da Irmã Água que flui no centro mesmo deste poema: nos rios
que cortam nossas cidades, na chuva que nutre nossas plantações, na água cristalina que
sacia nossa sede. E, ao escutar atentamente, talvez possamos aprender com ela as
virtudes da utilidade desinteressada, da humildade sincera, do valor inestimável e da
pureza autêntica. Afinal, é isso que ela é: uma irmã preciosa na grande família
universal, sem a qual nossa própria existência seria impossível.”

Nota

Crédito de Imagem: arte criada com Canva. Pascom Imaculada.