Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap

“Continuando nossa jornada pelos versos do Cântico das Criaturas, que celebra oitoséculos de existência neste ano, contemplamos agora as palavras de São Francisco sobre os luminares noturnos e o vento: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas, no céu as formaste claras e preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor pelo Irmão Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.”

Após celebrar o esplendor do Sol, Francisco volta seu olhar contemplativo para o céu noturno. A Lua e as Estrelas não são corpos celestes distantes e indiferentes, mas membros próximos de nossa família cósmica. Ao chamá-las de “irmãs”, Francisco estabelece uma relação afetiva com estes astros, convidando-nos a redescobrir o sentido de admiração e parentesco com todo o universo visível.

A descrição franciscana desses luminares como “claras, preciosas e belas” não é mera poesia, mas uma percepção profunda de seu valor intrínseco. Em um mundo cada vez mais afetado pela poluição luminosa, onde as luzes artificiais ofuscam o brilho natural dos astros, estas palavras nos convidam a redescobrir o valor do céu noturno. A contemplação das estrelas não é apenas uma experiência estética, mas uma porta para o mistério e a transcendência. Quando perdemos a capacidade de ver as estrelas, algo essencial se apaga em nossa experiência humana.

A referência à Irmã Lua tem especial relevância ecológica. Este astro, que regula as marés e influencia inúmeros ciclos naturais, nos lembra da delicada e complexa interconexão entre todos os elementos do cosmos. Os ciclos lunares têm orientado a agricultura, a pesca e inúmeras atividades humanas ao longo da história. Reconhecer a Lua como irmã significa também reconhecer a importância destes ritmos naturais que nossa sociedade tecnológica frequentemente ignora.

Francisco prossegue seu cântico louvando o “Irmão Vento” e o ar “nublado ou sereno”.
Sua percepção da importância fundamental do ar para a vida – “pelo qual às tuas criaturas dás sustento” – revela uma compreensão profunda da ecologia muito antes de este termo ser cunhado. O ar não é um vazio indiferente, mas um elemento essencial que sustenta toda forma de vida, merecendo, portanto, respeito e cuidado. Esta visão franciscana do ar como fonte de vida contrasta dramaticamente com nossa realidade atual, onde a poluição atmosférica compromete a saúde de bilhões de pessoas e contribui para as mudanças climáticas. Quando envenenamos o ar com emissões tóxicas, não estamos apenas degradando um recurso natural, mas ferindo um membro de nossa família cósmica – o Irmão Vento que nos dá sustento.

A menção de Francisco a “todo o tempo” – seja nublado ou sereno – também nos oferece uma lição valiosa. O santo reconhece que todos os estados atmosféricos, mesmo aqueles que consideramos desfavoráveis, têm seu lugar e propósito na economia da natureza. Esta aceitação dos ciclos naturais contrasta com nossa tendência moderna de querer controlar completamente o ambiente, ignorando a sabedoria intrínseca dos processos naturais.

Os versos de Francisco sobre a Lua, as Estrelas e o Vento, longe de serem meras expressões poéticas de um místico medieval, constituem um programa ecológico profundamente atual. Eles nos convidam a superar a alienação moderna em relação ao cosmos e a redescobrir nossa pertença à grande família universal, onde cada elemento – do mais distante astro ao sopro de ar que nos mantém vivos – é nosso irmão ou irmã, digno de respeito, admiração e cuidado.

Que ao contemplarmos o céu noturno ou ao sentirmos a carícia do vento em nosso rosto, possamos recordar estas palavras de Francisco e renovar nosso compromisso com a proteção desta maravilhosa família cósmica da qual fazemos parte.”

Nota

Crédito de Imagem: Arte criada com Canva. Pascom Imaculada