Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap

“Hoje, queremos meditar sobre um trecho particularmente rico do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.

Neste verso, São Francisco chama a Terra de “irmã” e “mãe” — palavras que carregam um profundo senso de pertencimento e reverência. A Terra é mãe porque nos alimenta, nos acolhe, nos sustenta com sua generosidade. É dela que vêm os frutos, os alimentos, as flores, as ervas — tudo aquilo que mantém a vida e que nos permite viver com saúde, alegria e beleza. E é irmã porque fazemos parte da mesma obra criadora, todos filhos do mesmo Deus. Assim, Francisco não vê o mundo como um simples depósito de recursos a serem explorados, mas como parte de uma grande família cósmica onde tudo está interligado.

Ao dizer que a Terra “nos sustenta e governa”, o santo de Assis vai além da simples constatação de que dela vem nosso sustento físico. Ele reconhece que há uma sabedoria inscrita na própria natureza: seus ciclos, seus tempos, suas estações nos ensinam a viver com equilíbrio e a respeitar os limites naturais da vida. Quando violamos essa ordem — desmatando, poluindo, consumindo de forma descontrolada — rompemos a harmonia da criação e sofremos as consequências: desastres ambientais, escassez, crises climáticas. A Terra governa porque ela, silenciosamente, orienta e corrige, mostrando-nos que não somos senhores absolutos, mas cuidadores de algo que nos foi confiado.

As “flores coloridas” e os “frutos diversos” mencionados por Francisco são também uma celebração da beleza e da diversidade da criação. Deus, em sua infinita criatividade, não nos deu apenas o necessário, mas encheu o mundo de variedade, cor e perfume. Isso desperta em nós a gratidão, o encantamento e o desejo de contemplar. E é justamente essa capacidade de se maravilhar que pode reacender em nós o cuidado e o respeito pelo meio ambiente. Quando perdemos a capacidade de admirar uma flor, de saborear um fruto, de tocar a terra com reverência, corremos o risco de tratar tudo como descartável. Mas quando olhamos a criação com os olhos de Francisco, enxergamos nela o reflexo do amor de Deus.

Essa visão franciscana nos interpela. Como estamos cuidando da “irmã mãe Terra”? Como nossas escolhas — no consumo, no descarte, na alimentação, no uso da água e da energia — revelam nossa gratidão por tudo o que recebemos da criação? A espiritualidade ecológica que São Francisco nos propõe não se limita a discursos ou ideias bonitas, mas se traduz em atitudes concretas: plantar, preservar, reciclar, evitar o desperdício, apoiar ações que promovam justiça ambiental. E, acima de tudo, cultivar uma postura de gratidão e respeito por cada elemento da natureza.

Celebrar os 800 anos do Cântico das Criaturas é reconhecer que este hino continua atual, profético e necessário. Num tempo em que a Terra geme sob o peso da exploração e da indiferença, somos chamados a escutar sua voz e a responder com amor e responsabilidade. Que, seguindo os passos de São Francisco, possamos reconhecer a Terra como dom de Deus, e cuidar dela como quem cuida de uma irmã querida e de uma mãe amorosa.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a mãe Terra!”

 

 

Nota

Crédito de Imagem: Arte criada com Canva. Pascom Imaculada