Autor: Frei George Matheus Costelletos, OFMCap
“Em 1225, deitado em uma pequena cela em São Damião, com a saúde debilitada e quase cego, São Francisco de Assis compôs o sublime Cântico das Criaturas. Este hino extraordinário, que celebra seu 800º aniversário, não é apenas uma obra-prima da literatura espiritual, mas um testemunho profundo da relação entre o ser humano, Deus e toda a Criação. Durante esse ano vamos refletir sobre ele e nesse mês, sobre seus primeiros versos.
O contexto histórico do cântico nos ensina muito. No século XIII, quando Francisco escreveu estas palavras, a Europa passava por profundas transformações sociais e econômicas, com o crescimento das cidades e o desenvolvimento do comércio. Em meio a estas mudanças, ele propôs uma visão radicalmente diferente: a de uma família universal que incluía não apenas os seres humanos, mas todas as criaturas como irmãs e irmãos.
“Altíssimo, onipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.” Com estas palavras profundas, São Francisco de Assis inicia seu Cântico das Criaturas. Estas linhas iniciais, aparentemente simples, carregam uma mensagem revolucionária sobre nossa relação com a natureza e nossa posição no mundo criado.
Ao declarar que todo louvor pertence ao “Altíssimo”, Francisco estabelece uma hierarquia fundamental que nossa sociedade moderna frequentemente esquece: não somos os senhores absolutos da Criação. A humildade presente nestas palavras iniciais – especialmente na afirmação de que “nenhum homem é digno de te nomear” – nos confronta com nossa verdadeira posição no universo criado. Não somos deuses, mas criaturas entre criaturas.
Esta perspectiva franciscana oferece um antídoto poderoso para a crise ecológica atual. Quando nos consideramos senhores e possuidores da natureza, como propôs Descartes séculos depois, acabamos justificando a exploração desenfreada dos recursos naturais. Mas quando reconhecemos, como Francisco, que somos indignos até mesmo de nomear o Criador, nossa postura diante da Criação muda radicalmente.
O termo “bom Senhor” usado por Francisco também merece nossa atenção. Ao reconhecer a bondade divina, o santo nos lembra que toda a Criação é fruto do amor. Cada elemento da natureza – do menor inseto à mais imponente montanha – reflete esta bondade fundamental. Nossa tarefa, portanto, não é dominar a natureza, mas reconhecer e preservar sua bondade intrínseca.
Os adjetivos que Francisco utiliza – “Altíssimo” e “onipotente” – estabelecem uma distância infinita entre o Criador e as criaturas. Paradoxalmente, é justamente esta distância que nos une a todos os seres criados. Diante da magnitude divina, tanto o ser humano quanto o mais simples ser vivo compartilham a mesma condição de criaturas. Esta compreensão nos convida a uma solidariedade universal com toda a Criação.
Ao completar oito séculos, estas palavras iniciais do Cântico nos chamam a uma profunda conversão ecológica. Elas nos convidam a abandonar a arrogância que tem devastado nosso planeta e a redescobrir nossa vocação original: sermos guardiões humildes de uma Criação que não nos pertence, mas que nos foi confiada pelo “bom Senhor” para que a preservemos em toda sua beleza e dignidade.
Que estas palavras de São Francisco continuem ecoando em nossos corações, inspirando-nos a uma relação mais humilde e respeitosa com toda a Criação, para a glória do Altíssimo.”

Fonte da imagem acima: Poemário vasculhado 5: Cântico das Criaturas – Giovanni di Pietro Bernardone (São Francisco de Assis) – imediata
Nota
Crédito da imagem que abre este artigo: Galeria del Cantico de las Creaturas de Piero Casentini

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