Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap

“Avançando em nossa peregrinação pelos versos do Cântico das Criaturas, que neste ano celebra seu octingentésimo aniversário, chegamos agora à contemplação do elemento que complementa a água no equilíbrio vital da Criação: “Louvado sejas, meu Senhor, pelo Irmão Fogo pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e alegre e vigoroso e forte.

Após meditar sobre a Irmã Água, que representa o coração do Cântico com sua humildade e pureza, São Francisco dirige seu olhar para o elemento oposto e complementar. Se a água flui para baixo em humildade, o fogo ascende em direção ao céu. Se a água é fria e úmida, o fogo é quente e seco. Esta dinâmica de complementaridade nos revela a sabedoria franciscana que reconhece a harmonia dos
opostos na grande sinfonia da Criação.

Ao chamar o fogo de “irmão“, Francisco mais uma vez subverte nossa relação habitual com os elementos naturais. O fogo, que pode ser tanto benéfico quanto ameaçador para os seres humanos, não é visto como um servo ou um inimigo, mas como um parente, um companheiro de jornada no grande mistério da vida. Esta perspectiva de parentesco universal nos convida a uma relação mais respeitosa com este elemento poderoso.

Francisco destaca primeiramente a função iluminadora do fogo: “pelo qual iluminas a noite“. Antes da eletricidade, o fogo era a única fonte de luz artificial disponível à humanidade. As fogueiras, tochas, velas e lamparinas permitiam estender as atividades humanas para além do pôr do sol e ofereciam proteção contra os perigos noturnos. Esta função iluminadora do fogo tem profundo significado simbólico em todas as tradições espirituais, inclusive na cristã, onde Cristo é chamado de “Luz do mundo“.

Na tradição cristã, o simbolismo do fogo é particularmente rico e multifacetado. O Espírito Santo desce sobre os apóstolos em Pentecostes na forma de “línguas de fogo“, manifestando o poder transformador e purificador da presença divina. A coluna de fogo guia o povo de Israel durante o Êxodo, simbolizando a proteção e orientação divinas. O Círio Pascal, aceso com o fogo novo na Vigília Pascal, representa Cristo ressuscitado dissipando as trevas da morte. As velas do Batismo e da Confirmação evocam a luz da fé que deve brilhar no mundo. Esta rica simbologia cristã do fogo, que São Francisco certamente tinha em mente ao compor seu Cântico, nos ajuda a compreender a profundidade espiritual de sua referência ao “Irmão Fogo” como manifestação da glória divina.

Os adjetivos que Francisco utiliza para caracterizar o Irmão Fogo são particularmente reveladores. Ele o descreve como “belo“, reconhecendo a atração estética que sentimos pela dança das chamas, pelo brilho das brasas, pela aurora policromática do alvorecer. A beleza do fogo nos convida à contemplação e à gratidão pelo dom da luz. O santo também chama o fogo de “alegre“, capturando o caráter festivo e acolhedor de uma fogueira que reúne pessoas, aquece o ambiente e cria atmosfera de comunhão. As
celebrações ao redor do fogo fazem parte das mais antigas tradições humanas e continuam presentes em nossa liturgia, como no fogo novo da Vigília Pascal que simboliza a ressurreição de Cristo.

Francisco prossegue descrevendo o fogo como “vigoroso“, reconhecendo sua energia transformadora e sua capacidade de converter matéria em luz e calor. Este vigor do fogo nos lembra nossa própria vocação de transformar o mundo através do amor ativo e do serviço ao próximo.

Por fim, o santo chama o fogo de “forte“, reconhecendo seu imenso poder que, quando descontrolado, pode causar destruição. Esta força do fogo nos convida à reflexão sobre nossa responsabilidade no uso das energias disponíveis em nosso planeta. Ao contemplarmos as chamas de uma vela ou o brilho do sol poente, somos convidados a recordar as palavras de Francisco e a reconhecer no Irmão Fogo um mensageiro da luz divina, um arauto da beleza, da alegria, do vigor e da força que emanam do Criador. E,
assim iluminados, possamos nós mesmos nos tornar portadores dessa luz para um mundo muitas vezes obscurecido pela indiferença e pelo egoísmo.”

Nota

Crédito de Imagem: arte criada com Canva. Pascom Imaculada