Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap.
Em nossas reflexões anteriores sobre o Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, celebrando seus 800 anos, contemplamos com gratidão os elementos da criação e a presença de Deus em cada detalhe da natureza.
Nos aproximamos do final do cântico: chegamos àquela estrofe que, com coragem e serenidade, nos convida a louvar a Deus até mesmo pela morte: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar. Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!”
Este trecho pode soar duro aos nossos ouvidos modernos, acostumados a evitar o tema da morte. Mas, para São Francisco, a morte não era uma inimiga a ser temida, e sim uma irmã, parte da criação, tão natural quanto o nascer do sol ou o florescer da primavera. Ao chamá-la de “irmã”, Francisco a reconcilia com a vida: reconhece que ela também é obra de Deus, e que, vivida na fé, pode ser ocasião de encontro com o Criador.
Essa visão nos ajuda a perceber o quanto estamos desconectados da natureza e de seus ciclos. Vivemos em uma cultura que busca esconder os limites, o envelhecimento, o fim das coisas. Ao negar a morte, muitas vezes também negamos a realidade de que a Terra tem seus próprios ciclos, e que tudo o que existe passa por processos de transformação.
Assim como a folha que cai alimenta o solo, como o fruto amadurecido dá lugar à semente, também nós estamos inseridos nesse grande mistério da renovação contínua da vida.
O olhar franciscano nos convida a aceitar a finitude com humildade, e a cuidar da criação com a consciência de que não somos donos eternos de nada. A espiritualidade ecológica, nesse sentido, é também uma espiritualidade do limite. A Terra sofre porque o ser humano tenta escapar de seus próprios limites, consumindo sem medida, poluindo sem pensar no amanhã, destruindo em nome de um progresso que ignora a fragilidade da vida. A “irmã Morte”, acolhida com fé, nos recorda que tudo tem seu tempo, que tudo pertence a Deus, e que, por isso, devemos viver com responsabilidade e gratidão cada instante que nos é dado.
Francisco também nos lembra que felizes são aqueles que a morte encontra “conformes à santíssima vontade de Deus”. Ou seja, a morte, vivida em comunhão com o Criador, não é fim, mas passagem. Isso dá novo sentido à nossa missão de cuidado com a criação. Não estamos aqui para acumular, mas para servir; não para dominar, mas para cooperar; não para viver indefinidamente, mas para amar até o fim.
Quem vive assim, mesmo diante da morte, permanece na vida. A “morte segunda” — aquela que representa a separação definitiva de Deus — não tem poder sobre os que se entregam com confiança à sua vontade.
Nesta estrofe final do cântico, São Francisco sela sua vida com louvor. Mesmo enfraquecido pela doença, mesmo próximo do fim, ele canta. Não se queixa, não acusa, não resiste. Ele louva. É este louvor sereno, cheio de esperança e humildade, que pode inspirar também nossa relação com a Terra. Que saibamos viver e morrer reconciliados com Deus, com os outros, com nós mesmos e com toda a criação. Assim, à medida que caminhamos como comunidade na construção de uma consciência ecológica mais profunda, não esqueçamos que tudo, inclusive nossa própria vida, é dom e passagem. E que cuidar da Terra é também uma forma de nos prepararmos, com amor e simplicidade, para o dia em que nossa irmã, a Morte corporal, vier nos chamar para a casa do Pai.
Nota
Crédito de Imagem: Arte criada com Canva. Pascom Imaculada

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