Por: Frei George Matheus Costelletos, OFMCap.
Ao longo de nossas últimas edições, caminhamos passo a passo pelas estrofes do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, que há 800 anos nos inspira a louvar a Deus através da beleza da criação.
Agora, chegamos ao seu encerramento, marcado por uma convocação profunda e universal: “Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.”
Francisco encerra o cântico como quem abre um convite a todos os seres, a toda humanidade, para que se unam no louvor. Não se trata mais apenas de contemplar a natureza — o sol, a lua, a água, o fogo, a terra, a morte — mas de responder a essa contemplação com gratidão e ação. Depois de reconhecer em cada elemento da criação a presença do Criador, o gesto natural e necessário é o louvor, o agradecimento e o serviço.
Neste trecho final, o santo de Assis nos ensina que a verdadeira ecologia cristã não é apenas admiração pela natureza, mas um caminho espiritual que conduz à adoração. Louvar e bendizer ao Senhor é reconhecer, com todo o nosso ser, que não estamos no centro do universo. É devolver a Deus a glória que vemos refletida em cada criatura. É perceber que, por trás da beleza do mundo, há um amor infinito que sustenta tudo — e esse amor merece ser celebrado.
Dar graças é uma atitude profundamente ecológica. Num mundo marcado pelo consumo excessivo e pela insatisfação constante, agradecer é um ato revolucionário. A gratidão nos ajuda a viver com mais simplicidade, a valorizar o que temos, a respeitar os recursos da Terra e a reconhecer os pequenos milagres do cotidiano.
Quem agradece não desperdiça. Quem agradece cuida. Quem agradece transforma. E Francisco vai além: além de louvar e agradecer, somos chamados a servir. Servir a Deus com grande humildade é reconhecer que toda a criação foi confiada a nós, não para que dominássemos com arrogância, mas para que cuidássemos com amor
A humildade, nesse contexto, é a virtude do cuidador, daquele que sabe que a vida não lhe pertence, mas que pode colaborar com o projeto de Deus para o mundo. É a humildade que nos coloca em sintonia com a Terra, com os pobres, com os doentes, com os esquecidos. É a humildade que nos move a proteger o que é frágil, a conservar o que é belo, a restaurar o que foi ferido.
Este final do Cântico é como uma oração que se abre em missão.
Não é um ponto final, mas um envio: depois de louvar, bendizer, agradecer e servir, somos chamados a continuar cantando com a vida. Somos chamados a fazer de cada gesto diário — na casa, no trabalho, na comunidade — uma expressão concreta desse louvor. Se cuidamos da criação, se lutamos por justiça ambiental, se educamos para o respeito à vida, estamos louvando.
E é isso que São Francisco nos ensina até sua última palavra. Que esse cântico, tão antigo e tão atual, continue ecoando entre nós, como uma semente de fé, gratidão e compromisso com a casa comum.
Louvemos, bendigamos, agradeçamos e sirvamos — com humildade, com alegria, com esperança!
Nota
Crédito de imagem: Arte criada com Canva. Pascom Imaculada

0 Comentários
Deixe um comentário