
Quando olhamos para as catedrais nos deparamos, muitas vezes, com uns bichos horrorosos nos olhando lá de cima. Qual o sentido?
Se você sabe sobre o que estamos falando, você já viu uma gárgula ou quimera.

(Crédito de Imagem: autor não localizado)
As gárgulas eram figuras grotescas típicas da arquitetura gótica. As quimeras eram figuras místicas caracterizadas por uma aparência híbrida de dois ou mais animais e a capacidade de lançar fogo pelas narinas, sendo, portanto, uma fera ou besta mitológica. Ambas são geralmente chamadas de gárgulas.
Foram muito usadas em Catedrais de arquitetura gótica.

(Crédito de Imagem: autor não localizado)
Qual a utilidade prática das gárgulas?
Gárgula vem do francês gargouille, gargalo ou garganta. Eram estruturas colocadas próximas às calhas de igrejas medievais, com a função principal de esconder os canos que escoavam a água da chuva, que passava por suas gargantas.
A ideia parece ter surgido no Egito Antigo. Templos já tinham gárgulas no formato de cabeça de leões. Isso também foi adotado na arquitetura grega e o costume não se perdeu.
Durante o século XII, quando as gárgulas apareceram na Europa, a igreja católica estava se fortalecendo e convertendo muitos novos fiéis. A maioria da população da época não era alfabetizada e, por isso, o uso de imagens era muito importante para transmitir ideias. Acredita-se que essas figuras eram usadas para indicar que o demônio nunca dormia, exigindo vigilância contínua dos fiéis. Também tem quem diga que as esculturas seriam usadas para afastar o mal e os espíritos perversos, assustando-os. Em ambos os casos, a presença dos monstros reforçava a necessidade da presença na igreja para proteger a população.

Em 15 de abril de 2019 a Catedral de Notre-Dame, em Paris, foi atingida por um incêndio, que destruiu parte da estrutura da igreja e muito de sua decoração: “A causa das chamas não foi determinada, mas o promotor-chefe de Paris disse na época que acreditava que provavelmente foi iniciado por acidente. Teorias incluem que o incêndio poderia ter começado por um cigarro ou uma falha elétrica, enquanto reformas que estavam em andamento na época também foram investigadas.” Extraído de Reconstrução de Notre-Dame: Relembre como foi o incêndio que destruiu igreja | CNN Brasil
Após 5 anos de restauro, e muitos trabalhadores e restauradores envolvidos, a Catedral de Notre-Dame foi aberta em 7 de dezembro de 2024.
A restauradora Giusy Genna, membro da Restauratori Siciliani, foi encarregada de restaurar as Gárgulas de Notre-Dame: um trabalho minucioso, que exigiu muita atenção e cuidado. Na sua página do Facebook ela conta um pouco sobre seu trabalho de restauro nas gárgulas e compartilha algumas fotos: (14) Giusy Genna | Facebook







Mas nem todas as gárgulas expeliam pela boca. Há, digamos assim, o lado B das estruturas, raramente mencionado. Grotesco, afinal, não quer dizer só monstruoso, mas também ridículo e vulgar.



Qual o propósito dessas gárgulas grotescas?
Alguns padres diziam que as gárgulas eram criaturas do mal, e que elas estavam “do lado de fora da igreja”. Dessa forma, tinha-se a idéia de que o interior da igreja era um local livre destas criaturas. Entretanto, outros padres diziam que as gárgulas na verdade seriam criaturas que protegiam a igreja, espantando os maus espíritos.
De acordo com o medievalista James Emmons, autor de Artifacts from Medieval Europe (Artefatos da Europa Medieval), essas figuras pornográficas haviam sido colocadas em gárgulas como uma forma de expulsar – “defecar”– o pecado para fora das igrejas.
Outra teoria, esta por James Jerman e Anthony Weir, é que as gárgulas representavam o pecado, a brutal e vulgar vida sem Deus. Eram grotescos porque eram pecadores. Sua intenção era lembrar-se da importância da salvação: o de não ser um animal horrendo e pecaminoso como as estruturas- ou terminar atormentado no Inferno por elas.
As gárgulas podem ser vistas em toda a Europa, em várias igrejas católicas, algumas delas são verdadeiras obras de arte.
Quando visitar prédios góticos, olhe para cima!

Fontes:
- Dicionário analítico do Ocidente medieval, de Jacques Le Goff (2017) – https://amzn.to/2tGcuWf
- Civilização do Ocidente Medieval, de Jacques Le Goff (2018) – https://amzn.to/304FyCK
- O físico: A epopeia de um médico medieval, de Noah Gordon (1998) – https://amzn.to/37Jiuw2
Nota:
Os “Créditos de Imagem” foram inseridas em legendas nas imagens que aparecem neste artigo. Destaque para as fotos da restauradora Giusy Genna durante seu trabalho nas gárgulas de Notre-Dame de Paris.
Crédito da Imagem que abre este artigo: extraído do site “Astelus”- As famosas gárgulas ou quimeras de Notre Dame, Paris




1 Comentário
Amo essa paróquia.
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