Por Frei George Matheus Costelletos, OFMCap
“Em continuação à nossa reflexão sobre o Cântico das Criaturas de São Francisco, voltamos agora nossa atenção para o segundo trecho: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumia. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.“
Nestas palavras, escritas há 800 anos, encontramos um conceito revolucionário que continua a desafiar nossa visão de mundo: a fraternidade universal com todas as criaturas. Quando Francisco chama o Sol de “irmão“, ele rompe radicalmente com a visão utilitarista da natureza. O Irmão Sol não é um simples objeto distante, mas um familiar próximo, um companheiro na grande família da Criação.
Esta fraternidade cósmica proposta por Francisco tem profundas implicações ecológicas para nossos dias. Em um mundo onde a natureza é frequentemente reduzida a meros recursos a serem explorados, o santo de Assis nos convida a restabelecer laços de parentesco com todos os elementos. Reconhecer o Sol como irmão significa compreender que não podemos explorar indefinidamente suas energias sem respeito e reverência.
A menção específica ao Sol não é casual. Francisco reconhece sua importância fundamental: “o qual faz o dia e por ele nos alumia“. Esta observação, aparentemente simples, revela uma verdade ecológica profunda: a total dependência da vida terrestre em relação à energia solar. Toda a cadeia alimentar, todos os ciclos naturais, toda a biodiversidade dependem direta ou indiretamente desta fonte primordial de energia. Ao reconhecer esta dependência, Francisco antecipa em séculos a compreensão ecológica moderna.
Mais surpreendente ainda é a percepção franciscana de que o Sol reflete algo do próprio Criador: “de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem“. Aqui, Francisco nos oferece uma chave para uma espiritualidade ecológica autêntica: cada elemento da natureza é um sinal visível, um sacramento da presença divina. A beleza e o esplendor do Sol não são apenas propriedades físicas, mas manifestações da beleza e do esplendor divinos.
Esta perspectiva sacramental da natureza nos convida a uma nova forma de contemplação ecológica. O sol que ilumina nossas manhãs não é apenas uma esfera de gás incandescente, mas um reflexo da luz divina que ilumina toda a existência. Cada raio solar que aquece a terra e possibilita a fotossíntese é um gesto de amor do Criador para com todas as criaturas.
Em nossos dias, quando a utilização inadequada de combustíveis fósseis compromete o equilíbrio climático do planeta, as palavras de Francisco sobre o Irmão Sol ganham nova relevância. Elas nos convidam a redescobrir a energia solar como dádiva divina e a desenvolver tecnologias que aproveitem esta energia de forma respeitosa e sustentável.
Que ao contemplarmos o nascer do Irmão Sol em cada manhã, possamos recordar estas palavras de Francisco e reconhecer, na luz que nos ilumina, um reflexo do Criador. E que esta consciência nos inspire a proteger e a celebrar todas as manifestações da vida em nosso planeta.”
Nota
Crédito de Imagem que abre este artigo: cena do filme “Irmão Sol, Irmã Lua”, em Portugal “São Francisco de Assis”, em italiano “Fratello sole, sorella luna”. Reino Unido e Itália, 1972. Direção Franco Zeffirelli. Roteiro Suso Cecchi d’Amico, Kenneth Ross. Lina Wertmüller, Franco Zeffirelli
Elenco: Graham Faulkner, Judi Bowker, Leigh Lawson, Valentina Cortese, Alec Guinness. Idioma língua inglesa. Mais informações sobre o filme acesse: Brother Sun, Sister Moon – Wikipédia, a enciclopédia livre

